A GRAMA

A HISTÓRIA DA GRAMA

GRAMA SENEPOL, UMA FILOSOFIA DE TRABALHO

A Fazenda da Grama e a raça Senepol são dois protagonistas no segmento da pecuária que fazem parte daquelas histórias que o destino reservou um para o outro. O primeiro, porque estudou o quanto devia e precisava para ter a certeza de que podia fazer a diferença na atividade, até trazer a raça para o país no ano 2000 e nunca mais parar de selecionar. O segundo, porque parece ter sido feito para o Brasil, encaixou suas aptidões na necessidade da Grama de produzir mais e melhor em menos tempo e encontrou na vanguarda, no arrojo e know how do criatório a mola mestra para sua rápida expansão em terras brasileiras. 

A pecuária desde sempre fez parte da vida de José Antônio Fernandes Júnior, médico veterinário que atuou junto à sua irmã Carolina nos negócios da família, inclusive inovando em 1990, em Jaboticabal/SP, com uma butique de carnes que se especializou em entregar ao mercado cortes nobres com excelência, posto que o próprio JR Fernandes selecionava entre seus fornecedores e também no seu próprio rebanho de cruzamento industrial.

Em tudo o que os Fernandes sempre se propuseram a fazer, o perfeccionismo foi marca registrada. A obstinação por resultados através de soluções práticas,

Publicação da DBO sobre o negócio de carnes da família Fernandes, em 1996.

das mais simples e objetivas às que demandassem mais investimento em tecnologia, foi o que moveu o filho mais velho de José Antônio Fernandes Netto e Dejanira Bellodi Fernandes, mantendo a filosofia de trabalho da família com a missão de lapidar uma raça e refletir o seu brilho em números, ecoando no que se tornou o Senepol da Grama.

O campo de atuação foi a Fazenda da Grama, formada em Pirajuí/SP no começo da década de 1980 por José Antônio Fernandes Netto, que tinha herdado do pai, Antônio Fernandes, o ofício de fabricar torneiras para filtros de água. Zé Torneira, como ficou conhecido, concedeu suas iniciais para perpetuar sua marca na pecuária. O ZT tatuado na perna de grande parte do Senepol do Brasil e na genealogia de animais na maioria dos rebanhos registrados da raça no país. 

Formado pela Unesp-Jaboticabal, em 1991, JR Fernandes ligou o motor da produtividade para alavancar os negócios da família. A preocupação com o conhecimento, gestão e relacionamento o levou a liderar várias ações que notabilizaram a família Fernandes como de grandes produtores rurais, reconhecida na mídia especializada, em crescimento no Brasil na década de 1990. 

Antes que a fazenda se tornasse uma das primeiras propriedades a conquistar a certificação GlobalGAP, chancela de bom manejo, com respeito socioambiental e outras qualidades concedida pela Eurep, o negócio de produção de carne dos Fernandes ganhou uma reportagem especial da revista DBO No 190, de julho de 1996, dois anos depois que Zé Torneira e a família abriram uma butique de carnes especiais.

A Garrote Carnes Nobres, inaugurada em 1994, abatia 800 animais entre 22 e 24 meses, para compor 70% da venda de 8 a 10 toneladas por mês de carnes diferentes, entre cortes especiais, embalagem fresca (70% do total), maturada ou temperada. Num projeto vanguardista para a época de abater animais superprecoces, JR Fernandes já visava mais o marketing que isso podia levar ao negócio do que os 50% de desconto no ICMS para o produto daquela categoria.

Junior Fernandes, em Billings - Montana, em 1999.

Ainda acadêmico, conheceu melhor a inseminação artificial num estágio que fez na fazenda de Armando Leal do Norte, em Carlos Chagas/MG. Um ano depois de formado, passou a inseminar suas matrizes todas meio-sangue europeu, com repasse de taurinos. Em 1995, o sucesso do manejo reprodutivo introduzido na Grama pelo filho de Zé Torneira e dona Dejanira rendeu a JR Fernandes o prêmio de melhor projeto de inseminação artificial do Brasil, concedido em Belo Horizonte/MG pelo Colégio Brasileiro de Reprodução Animal.

A condecoração se deveu ao índice de 91% de prenhez em 472 matrizes inseminadas na estação de monta iniciada em 1o de dezembro de 1994. O prêmio era uma viagem à Europa, que seria paga pela Lagoa da Serra, central de inseminação artificial de grande importância no Brasil e da qual a Grama era cliente. A viagem de criadores e técnicos organizada pela empresa, com sede em Sertãozinho, era para conhecer a Holland Genetics, holding do grupo multinacional do qual fazia parte a Lagoa.

JR Fernandes negociou o prêmio para preencher seu desejo por melhorias na pecuária de corte. Adepto do cruzamento industrial, tinha planos de conhecer a origem de um projeto que estava chegando ao Brasil através de uma joint venture entre a Leachman Cattle Company, de Billings, Montana (EUA), e a CFM, um dos grandes grupos agropecuários do Brasil. Era o Montana. Solicitou a troca da premiação por uma viagem aos Estados Unidos, sendo atendido pelo Colégio de Reprodução e pelos responsáveis da Lagoa, que bancariam a viagem. Ao invés de ir à Holanda, somente em 1999 ele embarcou rumo a Billings. 

Base de matrizes Senepol selecionadas por P.J. van der Wall na unidade dos Leachman, em Billings.

Os animais escolhidos para essa base Senepol vinham da seleção feita pelo técnico agrícola P. J. van der Wall, contratado por Leachman para buscar em diversos criatórios os melhores animais de cada marca, para formar um rebanho de consistência, baseado em números de uma avaliação que alimentava o sumário da SCBA e norteava a seleção de quem produzia mais Senepol, inclusive em Saint Croix. A ideia de produzir bezerros de corte nunca saiu do planejamento da Grama. Mas o Senepol já havia conquistado um adepto, que era também muito técnico e que buscava, então, um plano para levar a raça ao Brasil. Junior Fernandes e Fogaça, em sociedade com Daniel Stéfani, cuja família trabalhava com máquinas agrícolas em Jaboticabal, combinaram de fazer um negócio inusitado para a época, num acordo bem atrelado com os Leachman, via CFM. Um dos pontos negociados foi a quantidade. A CFM-Leachman seria a proprietária dos embriões, para que o trâmite fosse viabilizado. Os brasileiros pediram dois anos de carência para a joint venture na exclusividade de comercialização de Senepol no Brasil. Fábio Dias, então dirigente da controladora brasileira, concordou com a condição, desde que fossem 700 embriões. O preço passou a ser o vulto seguinte nas contas dos sócios, mas era preciso encontrar um mecanismo para facilitar a operação. O investimento já estava programado pelas três fazendas e custaria a cada uma delas uma quantia próxima a US$ 120 mil. Assim foi feito.

Tornaram-se proprietários de um botijão de nitrogênio que chegaria ao Brasil com embriões que eram parentes de raçadores que já forneciam sêmen altamente eficazes para projetos pecuários que alternavam raças para cruzamento no Brasil com as melhores doadoras identificadas nos Estados Unidos, reunidas na Georgia, na propriedade da Leachman Cattle Company. Eram fêmeas estruturadas, de um frame muito desejado, com muita funcionalidade de todas as características desejáveis a todos os selecionadores. JR Fernandes participou da seleção e dos acasalamentos com os técnicos americanos. De noite, já que não havia champanhe no hotel, a celebração entre os sócios de um grande negócio foi num brinde com água gasosa.

Doadoras selecionadas por JR Fernandes para fornecer os embriões que chegaram ao Brasil e deram início à Grama Senepol.

Um brinde com água. Com gás!

Reunião no Clay Center, em Nebraska, sobre o Senepol.

Em maio de 2000, JR Fernandes voltou aos Estados Unidos mais decidido a aprofundar o estudo e tomar uma decisão visando segmentar o seu negócio de produção de carne e de genética no Brasil. Uma das paradas foi em Clay Center, Nebraska, onde viu palestras de técnicos do Meat Animal Research Center (Marc), equiparado a um instituto da carne dos americanos. O Senepol era a pauta. A expedição brasileira foi até a Leachman Cattle Company ver de novo os Montana makers, touros de diversas raças taurinas que forneciam genética para formação do composto. As doses de sêmen de Montana para abastecer o mercado de 60 mil vacas no Brasil eram comercializadas aos franqueados com preços fixos em dólar. Quando Leachman percebeu o interesse dos brasileiros em estudar de onde vinha a maior influência produtiva daquele assemblage que formava o seu composto, deu importância a uma base Senepol no seu plantel. JR Fernandes conheceu e estudou essa base e dela saiu a genética que ele traria ao Brasil. Mas sempre motivado pela anuência e respaldo de seus pais, que confiaram no projeto, incentivaram e torceram muito para o êxito desse projeto. Como acabou acontecendo. Pesquisadores americanos já tinham estudado e referendado a raça como de grande potencial produtivo nos países de clima tropical, em condições parecidas com as de Saint Croix, ilha pertencente aos Estados Unidos onde a raça nascera pouco mais de meio século antes.

Burocracia e Cuidados

A chegada do Senepol na forma de embriões congelados emperrou em questões que adiaram os planos da Grama e dos sócios. Um pouco por causa de protocolos de produção dos embriões de TE nos Estados Unidos, que não tinham volume suficiente de produção, já que não eram de FIV. Outro tanto por burocracias aduaneiras e de protocolos sanitários a cumprir lá e no Brasil. Ao invés de chegarem em setembro de 2000, só desembarcaram em março de 2001. As obrigações alfandegárias geraram um grande trâmite de papéis providenciados pelos investidores, que ainda tiveram de respeitar um período de quarentena para os botijões, antes que fossem levados para a unidade da CFM onde estava o Montana, na Fazenda Guariroba, em Pontes Gestal/ SP, região de São José do Rio Preto. Os criadores foram preparando a base para receber os embriões em duas etapas e precisaram tomar todos os cuidados, inclusive legais, com aquela tecnologia que era nova. Os primeiros 550 embriões desembarcados em março de 2001 foram divididos entre os sócios e implantados com o sistema de compensação entre eles na forma de produtos nascidos. Stéfani apartou 800 de suas melhores fêmeas para receber os embriões na Fazenda Jatobá, em Jataí/GO. JR Fernandes e Zé Torneira tiraram das 2000 matrizes F-1 que produziam o composto Montana na Grama também as 800 mais bem preparadas. Todas virariam mães de produtos Senepol. Cada fazenda separou duas fêmeas para cada embrião, um número maior de receptoras que atendia à recomendação dos técnicos que fariam aquele serviço, delicado para a época, escolhendo as que estivessem em melhor condição na hora do procedimento. Os especialistas ainda receitaram para as barrigas de aluguel um bem elaborado regime alimentar, que as deixaria em condições de cumprir o protocolo de transferência dos embriões importados, sob o risco de não dar resultado. As transferências ocorreram em julho. Doutor Nélio Roberto Amâncio de Ávila, que havia se formado com JR Fernandes, fez o trabalho na Fazenda da Grama, em Pirajuí, junto com o assistente Manuel Ávila. Doutor José Renato Chiari, um dos maiores especialistas em TE, com quem o próprio doutor Nélio estagiara, implantou para os Stéfani, em Jataí. Mesmo sob todos os cuidados, o resultado não foi o esperado, levandose em conta o investimento. A taxa de prenhez foi perto de 30%. Ainda havia 150 embriões para receber do acordo com a CFM-Leachman e a diferença de efetividade para cumprir a garantia contratual de no mínimo 50% de nascimentos.

Como os índices foram muito aquém, na entrega da segunda leva de embriões a joint venture abasteceu o seu Núcleo Montana na CFM com produtos da mesma origem para um teste de efetividade. Os acertos foram acontecendo com os investidores brasileiros na proporção do que colhiam de resultados. Foi desses testes que nasceram produtos PO que, meses mais tarde, em 2003, a CFM negociou com outros criadores, que passavam a enxergar no Senepol uma grande raça. Por terem nascido no Núcleo Montana, receberam no registro as iniciais NM, seguido de um número, que obedecia à ordem de nascimentos da empresa. Só puderam ser negociados – como qualquer outro produto Senepol da empresa no Brasil – depois de cumprida aquela salvaguarda de dois anos firmada na negociação dos 700 embriões.

Mesmo com índice baixo de nascimentos e com as perdas, a partilha das crias aconteceu como estabelecido no acordo entre os três. Na Grama, 35 fêmeas nascidas receberam as iniciais ZT. Os machos serviriam para a quitação de outra parte do acordo dos três sócios com o fornecedor dos embriões. De todos os bezerros nascidos, 90% seriam entregues à Leachman Cattle Company, que os repassaria aos franqueados para se tornarem Montana makers. Os quase 100 animais entregues como pagamento já renderam a primeira noção de valor de um touro Senepol no Brasil. No final das contas para quitação do saldo, cada garrote foi entregue a uma cotação aproximada de US$ 1.750,00. O trio de criatórios ficaria com 10% dos melhores, em outra joint venture que eles batizaram de “Reprodutouros”, com a sigla Repro, que incluía a própria CFM-Leachman. Ela não definia a quem pertenceria cada touro. Todos eram de todos. Numa fusão que rendeu os três primeiros touros nascidos no Brasil para central de inseminação: 850 da Repro (WC 850 x HBC Dolly 51H / AC 761), 5225 da Repro (CN 5225 x CN 6284F / CN 5806C), ambos nascidos na Grama em fevereiro de 2002, e contratados pela Lagoa da Serra, além de Mustang da Repro (CN 5480 Hercules x SHR GY82 / El General AV189), nascido na Stéfani, em março de 2002. Na dissolução da parceria, a Grama acertou a aquisição de 850 da Repro, depois cedido para Alex Marconato, e de 5225 da Repro, vendido posteriormente para Jair dos Santos. Apesar de o volume de nascimentos não ter sido o esperado, o projeto continuou graças à fertilidade das vacas e do poder de produção do que já vinha selecionado dos Estados Unidos.

As primeiras siglas

JR Fernandes e Zé Torneira passaram a conviver com outros criadores que seguiram o mesmo itinerário dos estudos para adoção do Senepol no Brasil e, juntos, decidiram que a raça precisaria se organizar para ter aceitação comercial em um crescimento que parecia inevitável. Foram atrás de todos os trâmites legais e técnicos para criar a Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos Senepol (ABCB), da qual a Grama se tornou sócia número 1 após sua fundação, em 2002. 

Dias depois dos primeiros nascimentos de animais com a sigla ZT, JR Fernandes dividia o tempo de produtor de carne e de Senepol com o de membro da primeira equipe técnica da ABCBSenepol, reunindo-se a cada 15 dias em São Paulo para desenhar com a diretoria o futuro técnico e administrativo da raça, já que os animais iam nascendo e precisavam de uma identificação legal de registro. 

A associação tinha sido fundada em abril de 2002 e os primeiros animais da parceria ASAP (Arantes Pereira), que importou animais vivos para

Ariquemes/RO, eram registrados na associação internacional da raça (SCBA). João Arantes Júnior, da Nova Vida, contratou Walmore Miler Lacort para representar a associação junto ao Ministério da Agricultura. Ele trabalhava em Brasília com um trâmite que já conhecia, por ter regularizado o surgimento de outras associações de raça no Brasil.

Uma das primeiras regras era que os animais nascidos deveriam receber como registro a sigla de duas a quatro letras do criatório, quatro números de identificação e, no final, mais dois algarismos para representar o ano de nascimento.

Assim, nasce em fevereiro de 2002 Andina da Grama, o primeiro animal a receber o ID na ABCB-Senepol ZT090402, filha de PRR 840 ET x COP F1009 (Pack Power ED 7590 ET). Ganhou fama nacional como Grama 904 e o seu forte foram machos e fêmeas que descenderam dela e de suas crias e que chamaram atenção de outros selecionadores, ao ponto de fazer com que fosse necessário abrir sociedade na fêmea.

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Parceria no DNA

Kiko Gasperi e JR Fernandes, na Convenção Mundial Saint Croix.

 

Um desses sócios foi a Genetropic, com quem ficou estabelecida a divisão de produtos das aspirações. Numa primeira coleta, o acasalamento com WJ Wizard 23D mandou um macho para a Genetropic e uma fêmea ficou na Grama. Eram Caribe 35 da Genetropic e Grama 142, que deram continuidade ao melhoramento genético da raça. Caribe fez muitas doadoras qualificadas em provas de desempenho. Nascida em junho de 2008, Grama 142, entre outras, gerou em maio de 2011, com RAB 126A, a também doadora Grama 473. Tanta eficiência nas progênies levou JR Fernandes a clonar Grama 904, desaparecida em 2015, depois de deixar 292 embriões válidos. 

A partir de Grama 142, que sozinha produziu o recorde mundial de 1000 embriões em 12 anos de vida, as doadoras ganharam a qualificação de Safiras, num programa que a fazenda instituiu em 2009, com apoio de outras duas marcas que comungavam da ideia de que uma doadora não pode ser classificada como tal só por ter dois ovários. Uma dessas marcas foi a própria Genetropic, de Jairo Ferreira Lima. A outra, a Santa Helena, também de Pirajuí, onde Alex Marconato administrava o projeto de Senepol da sua família, depois de ter estagiado com JR Fernandes. 

GRAMA 473
GRAMA 142
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Foi com esses dois sócios que a Grama criou em 2007 o grupo Parceiros do Senepol, que chegou a ter 43 integrantes de várias partes do Brasil produzindo genética a partir do regulamento de qualificação dos animais para comercialização, atendendo uma demanda cada vez mais crescente do mercado.

O programa Safiras foi o marco regulatório da qualidade que uma fêmea precisava ter para ser explorada através de biotecnologias de reprodução como a FIV, que estava ganhando corpo no país.

Para dar condições de expansão da raça, a Grama investiu com os parceiros em variabilidade genética no berço desse taurino com características tropicais, a ilha de Saint Croix, onde buscou sangue raro e exclusivo para um projeto denominado Isla Senepol. Foi mais ou menos na mesma época em que a Grama recebeu da SCBA uma comenda como reconhecimento pelos seus relevantes serviços prestados ao Senepol, o troféu Mario Gasperi, que tem o nome de um dos fundadores da raça em Saint Croix.

Troféu Mario Gasperi conferido à Grama Senepol pelos seus relevantes serviços à raça.

Além disso, e do pioneirismo do programa de avaliação de fêmeas jovens de diversos criatórios, outras ações notabilizaram a Grama ao longo dos anos. Um dos mais relevantes foi entender de onde vinha tanta adaptabilidade da raça. No próprio Safiras, um estudo para conclusão de curso descobriu que essa capacidade do Senepol vem de sua glândula sudorípara mais parecida com a de um zebuíno que com a de um taurino, o que permite maior capacidade de troca de calor com o ambiente.

Esse e outros temas fizeram parte da evolução dos estudos que a Grama introduziu para atender com os parceiros a necessidade de mapear cada fêmea que passou a ter um grande valor no mercado, como ficou constatado em leilões que a própria Grama liderou com o nome Parceiros do Senepol e Safiras do Senepol. Cada selecionador integrante do grupo podia negociar seus animais dentro dos leilões chancelados pela prova com o melhor que se produzia no Safiras.

Tanto a Grama trabalhou com as parcerias que somente quando completou 15 anos de seleção é que foi realizar o seu primeiro leilão próprio. Até ali, contribuiu para o crescimento da raça não somente em volume, mas na qualidade que a ABCB-Senepol foi certificando para dar solidez a essa evolução. Essa blindagem de regulamentos que o corpo técnico da associação criou para manter o padrão da raça, visando sempre à manutenção de suas aptidões produtivas, reconheceu em JR Fernandes um grande propulsor. E o titular da Grama foi o primeiro técnico a ser nomeado membro vitalício do Conselho Deliberativo Técnico (CDT) da ABCB-Senepol.

Como já tinha dado “asas” para cada criatório voar na direção do seu mercado em diversas partes do Brasil, a Grama Senepol passou a investir pesado em tecnologias que dessem maior precisão nos dados colhidos no Safiras. Foi na Fazenda da Grama que surgiram os primeiros cochos eletrônicos da Intergado para medição de eficiência alimentar em tempo real, equipamento que depois se alastrou pelo país como ferramenta de economicidade misturado com melhoramento genético.

O programa Geneplus foi designado como coordenador do Safiras com o acompanhamento técnico de várias outras instituições de pesquisas e de empresas altamente tecnificadas para avaliação, entre elas a S+, que JR Fernandes fundou com Alex Marconato e o também veterinário Luciano Aranha para prestar assessoria aos selecionadores em todas as áreas técnicas e comerciais.

Foi nessa parceria com a Embrapa, para quem a Grama cedeu todos os dados coletados, que surgiu a ideia de avaliar nos mesmos moldes o touro Senepol, um grande personagem do cruzamento industrial por sua capacidade de cobrir a campo como o que se convencionou comparar a um botijão de sêmen atrás da vaca no pasto.

Porém, assim como na filosofia de JR Fernandes para as fêmeas, não é só porque um macho tem dois testículos que pode ser considerado reprodutor. Foi assim que ele, mais uma vez, inovou e instituiu o programa Topázio do Senepol para avaliação de touros jovens, inclusive de outros criadores que selecionavam seus melhores animais para usar a estrutura da Grama para qualificar seus indivíduos, fazendo com que novas expansões surgissem e a estrutura crescesse.

A Grama decidiu dobrar a sua capacidade de avaliação de machos e fêmeas na estrutura que ganhou o nome de Centro de Qualificação Genética Grama Senepol, o CQG, que se tornou modelo para medição de performance e desempenho de animais candidatos a serem multiplicadores de genética superior.

Toda essa trajetória virou currículo de uma marca que mudou a pecuária do Brasil, através de um taurino adaptado que ganhou os campos de Norte a Sul por sua capacidade de produção simples e lucrativa.

O movimento da raça cresceu no país e o Senepol se tornou uma grande opção, muito em função desse caminho árduo, porém glorioso iniciado nos anos 2000 pela Grama Senepol e, claro, em especial pela pessoa de JR Fernandes, que seguiu a filosofia da família de buscar o perfeccionismo e a missão de lapidar uma raça, refletindo seu brilho em números.

Também na parceria com a Intergado foi instalado na Grama o primeiro conjunto de bebedouros eletrônicos para a inédita medição de eficiência hídrica, um dado que não existia na literatura mundial e que passou a entrar na pauta de estudos da Embrapa, que, aliás, passou a utilizar o banco de dados do Safiras para abastecer o programa de melhoramento da ABCB-Senepol, o PMGS.

O CQG-Senepol na Fazenda da Grama, em Pirajuí/SP. Capacidade de avaliação de 480 animais por prova
Bebedouros eletrônicos, com pesagem eltetrônica voluntária, mais uma inovação tecnológica da Grama Senepol.

A Origem do Senepol, Feito para o Brasil

Gado crioulo na atividade canavieira da Saint Croix de 1800.

A necessidade de alimentar uma população, ainda que pequena, de uma minúscula ilha do Caribe americano foi o que deu a chance de descobrimento de uma raça que nasceria longe do Brasil, mas que para a pecuária brasileira parecia feito. Vem de meados do século XIX a origem da raça Senepol. Saint Croix é uma ilha no Caribe, de apenas 260 km2 e 45 km de extensão, que pertencia à Dinamarca. Desde a sua criação, o rebanho conviveu pelas ruas e estradas da ilha, foi adaptando sua condição de hospitalidade no convívio com os habitantes locais muito maior do que as tribos Kalinago que receberam com hostilidade as caravanas de Cristóvão Colombo quando ele ali desembarcou pela primeira vez, em 1492. A ilha era uma disputa de Espanha, Grã- Bretanha e Holanda, mas acabou virando posse da França, pelo menos de 1650 até 1733. Em junho daquele ano, os franceses venderam aquele conjunto de ilhas – formado também por Saint Thomas e por Saint John – para uma sociedade pertencente a uma companhia de colonos de uma união Dinamarca-Noruega. Só em 1814 os dinamarqueses se tornaram únicos donos das ilhas. Em 1916, após um referendo nacional oficial que teve aprovação de 62,4% da população do país escandinavo, foi autorizada a venda da ilha aos Estados Unidos, na operação registrada como Tratado Dinamarquês das Índias Ocidentais, por um valor de US$ 25 milhões pagos em ouro explorado na própria ilha, que além dessa extração já vivia também de cana-de-açúcar e do pouco gado que alimentava a população.

Os americanos passaram, em 1917, a ter o controle da ilha, que foi denominada Estados Unidos das Ilhas Virgens. Só em 1927 seus habitantes foram reconhecidos, legalmente, cidadãos americanos.

Mas muitas famílias de diferentes origens já haviam se instalado naquelas terras quentes, de clima tropical, vindas da América do Norte e com veias nórdicas dos povos que dominaram o território até aquele tempo. A evolução da ilha foi estabelecendo as divisões municipais e espalhando as famílias por Saint Croix. E, nessa época, todos deviam a subsistência a uma proteína vermelha que assegurava valores nutricionais e garantia saúde à população. Uma carne produzida por um gado formado ali mesmo, graças à visão de uma família.

A Ilha de Saint Croix.

OS NELTHROPP

Vacada N ́Dama na África.
Bromley Nelthropp

A família Nelthropp vivia numa pequena cadeia de montanhas no centro da Ilha de Saint Croix e já abastecia parte da população com o minguado gado sem definição de raça criado com várias experiências realizadas ali por alguns criadores, que importavam genética muito diversificada de países distantes, até 1889, e misturavam com o que se chamou na ilha de gado crioulo. Até que o patriarca, Henry Nelthropp, fez um grande investimento em uma vacada trazida 30 anos antes num navio negreiro por um quase vizinho, George Elliot. Eram animais da raça N’Dama originária do Oeste do continente africano, preferencialmente de Guiné- Bissau, depois desenvolvida no Sul do Senegal, Mali, Serra Leoa e Costa do Marfim.

Com o tempo, espalhou-se para o resto do continente, especialmente Congo e Zaire, por sua forte resistência a doenças como a do sono, causada pela mosca tsé-tsé. Animal de porte médio, em que fêmeas podiam atingir um metro até sua altura máxima da paleta e o macho, 1m20, com grande capacidade de conversão do pouco que comia em carne de bom valor nutricional, com pouca gordura. Apesar de até hoje fornecer pouco leite, média de 3 kg/dia, segundo departamento de estudo de raças da Universidade Estadual de Oklahoma, EUA, a fêmea N’Dama desmama suas crias com bom escore, podendo chegar rapidamente aos 300kg. O maior rebanho ainda está no Senegal, com mais de 1 milhão de cabeças de um animal que pode ser abatido com rendimento de carcaça médio de 50%.

Mas era pouco ainda para as exigências de uma terra quente, pobre em pastagens por causa de longas secas e com ameaças de parasitas. Os Nelthropp ainda não estavam satisfeitos e, apesar de a família possuir na fazenda Granard States o maior rebanho de N’Dama da ilha, com 250 cabeças, faltava um componente que agregasse o leite às matrizes. Albert, o filho mais velho de Henry Nelthropp, era o responsável pelo manejo e “fechou” a seleção para buscar gerações cada vez mais produtivas. Mas foi uma viagem de dois dias de navio do irmão mais novo, Bromley, que resolveu a questão.

Em 1918, Bromley Nelthropp rumou para Trinidad, pequena ilha ao sul do Atlântico que forma Trinidad e Tobago, nas Antilhas Menores. Procurava alternativas para o seu rebanho africano e resistente.

Encontrou e comprou um touro de uma tonelada batizado em Trinidad de Captain Kidd, que ele logo renomeou para Douglas, segundo relatos da negociação – não confirmados, porque uma anotação escrita a mão por um dos Nelthropp nomeava o touro de Sultan.

Duas versões dessa compra, uma de 1953 e outra de 1972, apontam para uma barganha de 2 mil dólares o custo desse reprodutor adquirido junto ao Ministério da Agricultura de Trinidad, que tinha ligação com a Estação Britânica de Pesquisas.

O fato é que Sultan, ou Douglas, segundo a mesma anotação, não parecia ser uma raça taurina pura. Apresentava ainda batoques que Bromley desconsiderou ao levar o seu novo reprodutor para Saint Croix a fim de cruzá-lo com as vacas N’Dama aspadas, para tentar cumprir o objetivo de mochar o seu rebanho, para facilitar o manejo e evitar prejuízos – como ferimentos que as vacas africanas se causavam com os chifres ou aos próprios responsáveis pelo manejo. Começava ali a se desenvolver um animal mais completo, com bezerros e bezerras recriando muito resistentes ao calor e à umidade, às doenças, e ainda desmamando mais pesados, dóceis.

O fato é que a procura continuou e experiências foram feitas com Brahman e até o Devon, mas com o rebanho “fechado” para apuração dos resultados, pelo menos até o início da década de 1940, com uma dificuldade muito grande de manter o rebanho crescendo e tentando diminuir o grau de consanguinidade.

Família Lawaetz na lida com o gado crioulo da Annaly Farms.

Em 1942, o mesmo Bromley adquiriu, na vizinha ilha de Saint Thomas, numa fazenda chamada State Tutu, o primeiro touro Red Poll puro, chamado Doctor, que passou a cobrir as fêmeas N’Dama para fornecer produtos que depois foram chamados de Senepol _ “Sene”, da origem africana senegalesa, e “pol”, de Red Poll.

Dali em diante, foram nascendo gerações cada vez mais completas e já sustentáveis, embora este termo não fizesse parte do vocabulário dos produtores locais. As crias desse cruzamento foram apurando as gerações seguintes com uma bezerrada altamente resistente às doenças, com pelo zero, mochas, vermelhas e dóceis, com alta capacidade de ganhar peso e produzindo uma carne que já começava a impressionar por sua maciez, suculência e sabor. É tudo o que qualquer ser humano deseja e era o que os Nelthropp tinham para oferecer. O interesse cada vez maior de pecuaristas vizinhos pelo gado produzido na casa dos Nelthropp os levou a um grande sucesso comercial até 1949 e a uma popularização dessa nova raça por eles desenvolvida.

Na virada da década, a família Nelthropp trocou de ramo na pecuária, passando da carne para o leite. O rebanho “inventado” na ilha passou para as mãos do empresário Ward Canaday, então presidente da Willy’s Jeep, que fez uma fortuna estimada de US$ 760 milhões fornecendo seus utilitários para as Forças Armadas dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial.

Canaday conservou Frits Lawaetz como gerente da sua nova Annaly Farms. Ele registrou todos os dados genéticos daquele novo rebanho, com o que, em 1954, os Estados Unidos oficializaram Senepol como nome da raça criada e desenvolvida na Ilha de Saint Croix.

Ward Cannaday, que deu origem às sigla WC do Senepol.
Frits Lawaetz.
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O OUTRO LADO DA ILHA

Pastos mais verdes do lado WC, o mais chuvoso da ilha.
Cenário da Castle Nugent
Rebanho dos Nelthropp que passou às mãos de Ward Cannaday em 1949.

Ward Canaday levou a Annaly Farm para continuar sua história com o Senepol para o lado oeste, batizado na ilha com suas iniciais. O lado WC, sigla que ainda existe em algumas linhagens da raça pelo mundo, sempre foi privilegiado em termos de condições naturais. Mais chuvoso, desenvolveu historicamente melhores pastagens, mas nunca foi menos exigente com a pecuária, onde se obtém animais de bom escore, fertilidade e habilidade materna espantosas.

A precocidade e a capacidade de maturidade sexual e de acabamento, tanto dos machos quanto das fêmeas, sempre foram muito nítidas, depois do surgimento do Senepol e da seleção natural a que foi se submetendo o gado criado pelos Nelthropp. No Extremo Leste da ilha, contudo, foi onde tudo começou, com a chegada dos primeiros animais N’Dama pelas mãos de George Elliot.

As aptidões rurais de Saint Croix eram comuns em todas as suas regiões. Na parte oriental viviam famílias que cultivavam com sucesso algodão, algum gado que também já se desenvolvia ali sem muita qualidade e até o indigueiro, planta que exige regiões quentes e de onde se extrai o anil. Mais seco, este lado da ilha casou perfeitamente com o N’Dama, que dividia os espaços ali com lavouras de algodão semeadas pelos escravos.

No começo da década de 1950, uma propriedade, a Castle Nugent, que já havia pertencido a muitas famílias, foi comprada pelos Wall, que dentre seus membros contava com Caroline, mais tarde casada com o italiano Mario Gasperi. Howard Wall, pai de Caroline, introduziu em 1957 os primeiros exemplares de Senepol na propriedade, pensando no sucesso de que ele já tinha notícia pelas mãos dos Nelthropp e, depois, com Ward Canaday.

Em 1963, Mario Gasperi, que já havia concluído seus estudos nos Estados Unidos, mudou-se com Caroline para Saint Croix e juntos passaram a selecionar o Senepol CN (iniciais de Castle Nugent) com a precisão que aquele lado da ilha exigia por causa de suas condições naturais. O relato é da própria Caroline Gasperi, que perdeu o marido em maio de 1989.

Em carta, ela documentou para órgãos de turismo na Ilha de Saint Croix a história da fazenda, que em 2006 foi doada para a Universidade das Ilhas Virgens – antigo Virgin Islands College – para seguir com as pesquisas sobre a raça que foi ali se firmando com ótima conformação, incrível resistência a parasitas e doenças e ainda com ótimo desenvolvimento de todas as características fenotípicas e genotípicas que a raça vem espalhando desde então pelo mundo afora. Foram famílias multiplicadas com essa junção de características que tornaram o Senepol completo, principalmente no Brasil, onde quase a totalidade dos criatórios desenvolve sua seleção a partir de uma genética originária das siglas WC e CN. Mas antes disso foi preciso muita pesquisa para certificar a “invenção” dos Nelthropp.

Pastos mais secos do lado mais exigente da ilha, onde se desenvolveu a sigla CN do Senepol da Castle Nugent.
Caroline e Mario Gasperi, titulares da Castle Nugent
Fachada da Castle Nugent transformada em unidade de pesquisa da Universidade das Ilhas Virgens.

A CIÊNCIA

Registros feitos pelos Lawaetz na Annaly Farms foram os primeiros dados de avaliação do Senepol.

Desde o reconhecimento oficial de raça pelos Estados Unidos, todo o desenvolvimento do Senepol vinha acontecendo nos campos da ilha através dos resultados que satisfaziam criadores e consumidores de uma carne abundante e de alto valor nutricional, além de macia e saborosa. Cada avanço nos números comerciais levantava a necessidade de estudar de onde vinha tanta capacidade produtiva.

Foi quando entraram em cena cientistas, pesquisadores e entidades interessadas em entender o Senepol e dar a ele o destino além-fronteira que ele já merecia.

Mas a primeira fronteira que o Senepol rasgou foi a do conhecimento, já que no então Virgin Islands College (VIC) – que somente em 1986 passou a se chamar University of Virgin Islands – aconteceram os primeiros estudos a respeito da estrutura dos animais criados soltos, na maioria dos casos, sem cercas, espalhados pelo território de Saint Croix.

Os primeiros resultados empolgaram tanto que, em 1972, o doutor Harold H. Clum (1894-1987) pediu ao Congresso dos Estados Unidos e obteve do USDA (United States Department of Agriculture) – o Ministério da Agropecuária americano – apoio para estudar a raça na ilha, sob a supervisão da

Universidade da Flórida. Um ano depois, John E. Rouse, um apaixonado estudioso de pecuária que percorreu 72 países pesquisando raças bovinas mesmo antes de se aposentar de uma refinaria americana, dedicou ao Senepol um dos volumes – o terceiro, de quatro – de sua extensa enciclopédia com a obra World Cattle III – Cattle of America.

Dois anos depois, o Dr. Darshan S. Padda, responsável pela Estação Experimental de Agricultura da VIC, concordou com Oscar Henry, um dos quatro primeiros criadores de Senepol de Saint Croix, em tornar a raça prioridade na ilha e iniciar a composição de um regulamento para exportação de animais puros. Para isso, foi necessário criar um Herd Book, um livro de registros rastreando os animais existentes na ilha baseado nos dados inseridos na recém-criada Virgin Islands BCIA (Beef Cattle Improvement Association), uma espécie de sumário com dados de avaliações do melhoramento genético observado na raça.

A convite do Dr. Padda e do diretor da VIC, Oscar Henry, um grupo de quatro pesquisadores americanos veio da Flórida para conhecer o Senepol e, por recomendação deles, elaborar um documento que guiaria aqueles próximos passos, que seriam, inicialmente, quatro: desenvolver um catálogo dos animais puros da raça; estabelecer os padrões raciais para catalogar os animais; criar um programa de testes comparativos da raça pura com outras criadas na ilha; e, por fim, elaborar o regulamento para quarentenar os animais, a fim de enviá-los ao continente.

Com essa organização, em 1977, os primeiros 22 animais vivos saíram de Saint Croix para cruzar o mar em direção ao continente americano, para serem estudados mais de perto pelos pesquisadores de diversas universidades nos principais estados produtivos dos Estados Unidos. Foi quando começou a despertar nos produtores rurais americanos o interesse em experimentar essa nova espécie bovina que já tinha muito respeito pelos estudiosos dos resultados que ele oferecia.

Apesar disso e por não ter ainda rebanho suficiente para ter uma “casa própria”, o Senepol foi “adotado” nos EUA por associações de outras raças, exatamente como aconteceu no Brasil, na África do Sul ou em outros países onde ele chegou e também cresceu rapidamente. Para o embarque aos Estados Unidos, os animais selecionados já tinham registro na Virgin Islands Senepol Association (VISA), que havia sido fundada em 1977.

Depois de todo o reconhecimento por parte do continente e da participação do Senepol pela primeira vez em uma exposição agropecuária, a North American Livestock Expo, em Louisville, Kentucky, em 1984, a USDA concordou em nacionalizar a associação e criou a American Internacional Senepol Association (AISA), que em 1990 se tornou Senepol Cattle Breeders Association (SCBA), que desde então coordena o avanço da raça pelo mundo e foi a primeira “casa” dos registros para os animais brasileiros.

O Senepol se espalhou por muitos países e encontrou um grande campo para aumentar em volume e em qualidade exatamente no Brasil. Apesar de os americanos apreciarem demais a criação do Senepol, sua carne e sua eficiência produtiva, no berço da raça ela está minguando por uma série de fatores.

Vão desde a extensão da ilha mais bem-aproveitada para o turismo, quando os devastadores furacões permitem, até o risco que uma criação bovina solta pelas rodovias locais representa. Um turista que acaba uma curva no seu deslocamento de carro pode se deparar com uma fêmea Senepol comum amamentando seu bezerro, possivelmente uma doadora em potencial em qualquer criatório selecionador de genética apurada da raça, mas ali, solta. As leis em Saint Croix foram ficando rígidas com relação ao seguro que o criador precisa fazer para cada animal – estima-se

Senepol embarcando em 1977 para os EUA para virar objeto de estudos.
Turismo passou a ser prioridade da Castle Nugent com a morte de Mario Gasperi.

em mil dólares por cabeça – a fim de cobrir eventuais danos dessa natureza. Muitos estão deixando de criar e optando por migrar para outras atividades produtivas ou para o próprio turismo, como o caso da Castle Nugent, que virou uma fonte de turismo ecológico-cultural, já que uma parte da propriedade foi doada à universidade local para visitação e campo de pesquisas.

Por isso, a carne consumida preferencialmente na Ilha de Saint Croix não é mais dos animais Senepol nascidos ali – ela chega de outros países, muito embora o turista que conhece as aptidões da ilha exija algumas vezes a autêntica carne do gado criado ali e que ganhou fama pelo mundo.
O mesmo acontece nos Estados Unidos, onde embora algumas propriedades conservem rebanho de Senepol puro como banco genético, a fim de renovar linhagens pelo mundo, o clima na maior parte do país desestimula cada vez mais o selecionador americano para a raça.

Depois de todas as conclusões tiradas no primeiro Simpósio Internacional de Pesquisas do Senepol que ocorreu em 30 de setembro de 1987 e teve todos os relatórios dos cientistas, bem como a transcrição do debate que aconteceu no final do encontro, relatados no livro Proceedings, reeditado em 1999 pela University of Virgin Islands, em Saint Croix, através do pesquisador Stephan Wildeus, já naquela ocasião, com a participação dos principais envolvidos na construção da raça e seu desenvolvimento na ilha, ficou claro que o Senepol era uma raça que caberia excepcionalmente bem em países tropicais.

Entre os participantes da mesa- redonda, alguns que fizeram e ainda fazem a história da raça, como Hans Lawaetz, Caroline Gasperi, Tim Olson, Dr. Chambers, entre outros, pareciam profetizar o que viria a ser o Senepol no mundo.

Para atender uma demanda que já se anunciava evidente, os testes prosseguiram em vários centros de pesquisa pelos Estados Unidos. Era a porta principal do conhecimento para muitos técnicos brasileiros que visitavam o país em busca de especialização. E foi assim que o destino do Senepol se encontrou com a busca por eficiência em pecuária de um país que hoje detém o maior e melhor rebanho de Senepol do mundo: o Brasil.