Junior Fernandes: “É uma honra poder compartilhar nosso trabalho”

Em entrevista, o coordenador de pecuária da Fazenda da Grama, Junior Fernandes, fala sobre a fazenda, a raça, analisa o futuro do Senepol e aborda a importância da gestão na propriedade.

Junior Fernandes
Desde quando vem sua ligação com o campo? Fale um pouco sobre sua trajetória.
Nossa família sempre trabalhou com agricultura. Em 1979, ingressamos também na pecuária, adquirindo a Fazenda da Grama, em Pirajuí (SP). Em 1986, eu ingressei na medicina veterinária e, com o consentimento, apoio e abertura de meus pais, comecei a colocar em prática os aprendizados da Faculdade. Passamos a adotar a inseminação artificial como ferramenta primordial em busca de melhoramento genético. Em 1995, conquistamos o prêmio do Colégio Brasileiro de Reprodução Animal, como melhor projeto de implantação de IA do Brasil. Durante todo esse período, sempre trabalhamos em busca de excelência em todas as etapas do processo e principalmente na área de gestão.
Como vocês conheceram a raça Senepol? Quando e como a Fazenda da Grama decidiu participar da vinda da raça para o Brasil?
Em 1997, fomos convidados a fazer parte do grupo de franqueados do Programa de Formação do Composto Montana. A partir daí, conhecemos o Senepol, pois o mesmo é uma das raças primordiais na formação do mesmo, como raça adaptada. No Montana, as fêmeas F1 (Red Angus, Simental, etc), eram inseminadas com Senepol. Foi neste ponto que ficamos encantados com a produtividade do Senepol. Os bezerros se destacavam. Pêlo zero, pelagem vermelha, muita padronização, é mocho e tem resistência a ectoparasitas. Em 1999, numa visita aos Estados Unidos, visitamos vários criatórios de animais puros e, neste momento, decidimos ingressar na raça. Em parceria com a Sacramento Agricultuar e Pecuária e a Agropecuária Stéfani, realizamos a importação de 700 embriões da raça. Em 2004, finalizamos nossa participação no Montana e, desde então, nos dedicamos à criação de Senepol.
No início, com as pessoas regiam quando você falava da raça, que ainda era desconhecida por aqui? E como é essa reação atualmente?
O Senepol é uma raça muito nova no Brasil. As pessoas falavam: Senepol, o que é isto? Que raça é esta? De onde vem? Tínhamos que explicar, mostrar, levar na fazenda, enfim, chegava um momento que parecíamos os meninos que trabalhavam como guias em cidades históricas. Sabe por exemplo, o cajueiro gigante de Natal…
Atualmente, o Senepol vem se expandindo, a raça vem crescendo. No entanto, isso é um processo lento e paulatino. A pecuária é uma atividade de ciclo longo. O que tem ajudado muito é o ‘boca a boca’, pelas virtudes e competências que a raça possui como ferramenta para auxiliar o desenvolvimento da atividade pecuária nos trópicos.
Sabemos que as raças taurinas não adaptadas (Angus, Red Angus, Simental, Limousin) possuem excelentes qualidades como ganho de peso, crescimento, precocidade sexual, marmoreio e maciez de carne. Entretanto, não possuem adaptação suficiente aos trópicos. Isso é facilmente explicável, já que são oriundas de clima temperado. No zebu e, em especial, a raça Nelore, possui altíssima adaptação. Entretanto, faltam características importantes que encontramos nas raças taurinas, principalmente no que se refere à maciez de carne.
O Senepol, por ser um taurino adaptado contempla a rusticidade do Nelore e a precocidade, maciez e acabamento de carcaça por ser tratar de um taurino. Assim, é ferramenta ideal para utilização em programas de cruzamento com animais Nelore e com fêmeas F1.
Você está convidando os pecuaristas para serem parceiros da Grama. Como funciona esse sistema de parceria?
A Fazenda da Grama tem como missão “ser reconhecida pela qualidade dos nossos produtos e confiabilidade das nossas informações”. Os nossos valores são: compromisso com os colaboradores e meio ambiente; integridade nas parcerias; e inovação. Acreditamos, portanto, em parcerias como forma de crescimento. Filosoficamente, “nenhum ser humano em si é uma ilha”. Podemos, através de parcerias sólidas e duradouras, gerar ganhos para ambas as partes. Parceria, para nós, tem que ser com todos ganhando, ou nada feito. Desta forma, possuímos atualmente grandes parceiros. Nossas parcerias incluem: aquisição de 50% de nossas doadoras superprovadas, utilização de toda a nossa base genética (sêmen disponível em nosso banco), aquisição de embriões para colocação na fazenda do parceiro, e divisão da produção, dentre outras possibilidades inovadoras que possam surgir de uma boa conversa.
Como é a relação da Fazenda da Grama com seus atuais parceiros?
Nossas parcerias são pautadas pelo respeito mútuo, visão compartilhada e espírito ganha-ganha. É preciso entender a necessidade de cada uma das partes e, com isso, encontrar as melhores soluções criativas. Discutimos criteriosamente os acasalamentos, projetamos o futuro. Somos meticulosos e precisos em cada uma de nossas decisões. Uma receptora leva 9,5 meses para parir e mais sete meses para desmamar. Não podemos nos dar ao luxo de produzir um animal que não atenda aos mais altos padrões de eficiência. Não há espaços para erros. Buscamos continuamente as melhores possibilidades. Ficamos horas para acasalar uma vaca. Neste ponto, tenho que destacar a atuação do parceiro Jairo F Lima, da Genetropic Agropecuária. Empresário de sucesso no ramo industrial que muito tem contribuído para a elaboração dos acasalamentos. Hoje possuímos em parceria mais de 10 doadoras.
Costumo dizer que somos muito gratos pelos nossos parceiros terem nos escolhido como tal. Além da Genetropic, possuem igual importância a Fazenda Santa Helena (Alex Marconato), Fazenda Mariópolis (Maria Lúcia de Abreu Pereira), Fazenda San Francisco (Roberto Coelho) e Fazenda São José (Pedro Gomes). Estamos continuamente em busca de parcerias que possam contribuir para o crescimento desse nosso time de trabalho.
Observamos que seus parceiros são espalhados por vários Estados, cada um com suas características, mostrando que a raça se adapta facilmente, é isso mesmo?
Isso é a mais pura verdade. Além dos parceiros acima, possuímos clientes no Mato Grosso do Sul, em Rondônia, Goiás, Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul. Isso confirma que o Senepol é a raça desenvolvida para o Brasil. É a ferramenta que pode contribuir para a pecuária nacional de forma consistente.
Quais são os principais resultados alcançados pela Grama até hoje?
Para nós, resultado significa contas em dia e cliente satisfeito. Para isso, fazemos um trabalho de pós-venda para acompanhar o desempenho de nossos touros e novilhas em todos os nossos clientes. Não abro mão de fazer isso cliente a cliente. Pego no telefone e procurar saber como as coisas estão. Minha maior alegria, por exemplo, foi quando liguei para Juína (MT), para o amigo Jorge Basílio, e ele me disse: “Junior, fizemos uma TE hoje em quatro doadoras adquiridas da Grama e nossas receptoras não foram suficientes. Tivemos que congelar os embriões”. Isto é uma das coisas sem preço, que nem mesmo aquele cartão de crédito pode comprar: a satisfação por adquirir um animal de nosso criatório.
Existem diferenças entre a criação de Senepol no Brasil e nos Estados Unidos? Os criatórios brasileiros já são comparáveis aos grandes norte-americanos?
Nos Estados Unidos, os criatórios são pequenos. As propriedades rurais são pequenas por lá. Aqui temos grandes propriedades se dedicando à utilização do Senepol. O berço do Senepol mundial continuará sendo os EUA. Eles exportam para o mundo tudo. É incrível, falou que é americano, todo mundo gosta de comprar. Isso não significa que não há criadores idôneos por lá. Há sim e um deles é a Sacramento Farms, cujo proprietário, Sebastião Fogaça, mais conhecido com Tião Fogaça, foi um de nossos parceiros naquela primeira importação de embriões para o Brasil. Ele também possui em Paranaíba (MS), um programa de desenvolvimento de Senepol através do programa de absorvente.
Acredito que, num futuro muito próximo, seremos o maior pólo difusor de genética Senepol do mundo. Melhoramento genético se faz, primordialmente, com volume de animais. E isso nós temos de sobra no Brasil… Reparem que, no momento que formos capazes de cumprir os protocolos sanitários internacionais, o Brasil será o maior exportador de genética Senepol. Entrentanto, o momento é de focar em nosso País e em busca do crescimento sólido da Raça. Temos muito a crescer no Brasil. Ainda estamos na fralda. E isso acontecerá, pois quem usa Senepol aprova e recomenda.
Qual é o futuro da raça Senepol na sua opinião?
Jamais concorreremos com o Nelore. Esta é e sempre será a base de nossa pecuária. O Senepol é a ferramenta para produzir em programas de cruzamento industrial, um animal adaptado, precoce e com carne macia. Este será o legado do Senepol. Produzir ao lado do Nelore e de suas cruzas F1, a carne que o Brasil e o mundo desejam.
Além de pecuarista, você lida com cursos, eventos e softwares voltados para a gestão da fazenda e de pessoas, certo?
É verdade, além de responsável pela Coordenação da Pecuária da Grama, sou sócio da Ampllo Treinamento de Desenvolvimento. Atuamos na área de treinamento, com enfoque em gestão do agronegócio e desenvolvimento de pessoas (coaching). Este trabalho me levou, em 2005, a fazer parte do time da Lagoa. Para lá levamos o curso de Gestão e o de Liderança, além de outros que estamos desenvolvendo atualmente.
Falando nisso, como é possível o pecuarista transformar a fazenda em empresa? E como deve ser a relação dos pecuaristas com seus colaboradores?
Uma fazenda tem que ser tratada como uma empresa. É preciso, fundamentalmente, gestão. Fato esse verdadeiro é que possuímos hoje na Lagoa um curso bimestral intitulado “Transforme sua Fazenda em empresa”, com duração de cinco dias. Recebemos pecuaristas e gerentes de todas as partes do Brasil. Um sucesso que muito nos honra e motiva.
Quanto a tratar os colaboradores, uma empresa é a somatória do conjunto de pessoas que nela trabalham. Quanto maior a competência dessas pessoas, maior a competência das empresas. Assim, o grande diferencial que uma empresa pode possuir é sua equipe de colaboradores. Pode-se comprar o esforço físico de uma pessoa, mas é possível comprar seus corações (sua motivação, seu comprometimento, sua dedicação). Para isso, é preciso que os líderes tenham em mente que as pessoas precisam, em primeiro lugar, gostar muito do que fazem (paixão). Isso não é possível comprar, é preciso adotar práticas de gestão onde o trabalho em equipe, o espírito de contribuição e importância de cada um seja constantemente lembrado e insuflado. A chama interna de cada um dos membros de uma equipe não pode acabar. Para isto é preciso que os propósitos estejam claros e os rumos bem definidos.
E o futuro da pecuária e do agronegócio, em geral, o que você acha que vai acontecer daqui pra frente?
O Brasil se consolidou como maior exportador de carne. Acredito que, fazendo nossa lição de casa, mesmo com as barreiras comerciais que nos são impostas, que neste momento não valeria a pena aumentar o escopo da análise; paulatinamente passaremos a concorrer por mercados mais exigentes por qualidade, o que significa maiores preços.
Qual o conselho que você dá para um pecuarista que está iniciando agora no negócio?
Se conselho fosse bom, ele seria cobrado (risos). Mas o que sugiro para o criador é que ele não entre de cabeça num negócio sem antes conhecê-lo. Em caso de interesse pelo Senepol, existem vários criadores espalhados pelo Brasil. Telefone, faça uma visita, avalie os resultados dos mesmos. As portas da Fazenda da Grama estão abertas para isso. Queremos passar nossas experiências, onde acertamos, o que jamais faríamos novamente. Enfim, para que reinventar a roda? Para nós, é uma honra poder compartilhar nosso trabalho e, com isso, trocar importantes experiências vividas. Isto significa crescer. Só assim, podemos transformar conhecimento em sabedoria.

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